São Paulo e Belo Horizonte — Durante três semanas, percorremos feiras livres em Lapa, Tatuapé, Santa Efigênia (BH), Barreiro e dois bairros periféricos — um em cada cidade. Anotamos preços da mesma "sacola básica": um quilo de tomate, meio quilo de cebola, um quilo de batata, maço de couve, dúzia de bananas e meio quilo de feijão carioca. Em maio de 2025, a sacola custava em média R$ 58. Em maio de 2026, R$ 79,40 — alta de 37%, bem acima dos 5,2% do IPCA no período.
Não é estudo acadêmico: é retrato de rua. Mas os números conversam com o que economistas chamam de inflação de alimentos no atacarejo e no varejo de bairro. A diferença é que na feira o preço muda de segunda para terça, o feirante olha na cara do cliente e a negociação faz parte.
O que subiu mais
Tomate liderou em todas as feiras visitadas. De R$ 4,50 o quilo em média em 2025 para R$ 9,80 em 2026 — mais que dobrou. Feirantes citam chuvas no interior de SP e em Goiás, principal origem do abastecimento paulista. Cebola e batata seguiram com altas entre 25% e 30%. Banana e couve subiram menos, perto de 12% — ainda acima da inflação geral.
Seu João, que trabalha na feira da Lapa há 22 anos, mostra caderno de compras na Ceagesp: "O frete subiu, o plástico subiu, a gente perde produto no caminho. Não é maldade — é conta." Dona Neuza, em BH, complementa: "Cliente acha que feirante é milionário. Se eu não vender hoje, amanhã estraga."
Feira não é supermercado
Pesquisadores da USP que acompanham cadeias de alimentos lembram que feiras livres abastecem especialmente famílias de renda média e baixa em bairros onde o supermercado é longe ou caro. Em SP, a Prefeitura registra 902 feiras licenciadas; em BH, cerca de 180.
A vantagem histórica da feira — preço competitivo e frescor — está sob pressão. Supermercados de bairro fizeram promoções agressivas em hortifrúti nos últimos meses. Mesmo assim, muitas famílias preferem a feira pela confiança e pelo crédito informal ("paga sexta").
Inflação de alimento não aparece só no IBGE. Aparece no almoço que encolhe, na feira que ficou mais cara e na marmita que virou luxo de escritório.
Da roça ao toldo
Para entender a cadeia, acompanhamos um carregamento na Ceagesp em uma madrugada de terça. Produtor de Holambra vende tomate a R$ 3,20 o quilo no atacado. Na feira da zona leste paulistana no mesmo dia, o quilo estava a R$ 10. Entre os dois pontos: transporte, taxa de banca, perda por avaria e margem do feirante.
Em BH, parte do abastecimento vem do Ceasa da capital e de cooperativas de Minas Gerais. Distâncias menores não impediram alta semelhante — combustível e mão de obra pesaram.
O que dá para fazer na prática
Especialistas em segurança alimentar sugerem planejamento semanal, compra de itens da estação e comparação entre feira e atacado quando há transporte disponível. Políticas públicas entram na conversa: programas de cesta básica, feiras populares com preço tabelado e fiscalização de intermediários.
Na Câmara de SP, projeto de vereador propõe mapa público de preços em feiras licenciadas — atualizado por aplicativo municipal. Feirantes receberam a ideia com ceticismo: "Preço muda com a chuva", disse um em Tatuapé. A Oficina vai acompanhar.
Se você tem feira fixa no bairro e quer mandar preços da sua sacola, escreva para [email protected]. Montamos um painel colaborativo nas próximas semanas.