Belo Horizonte — Quem atravessa a Avenida Antônio Carlos na altura da Pampulha conhece a cena: tapumes, máquinas paradas em alguns trechos e placas prometendo "mobilidade para o futuro". A Linha 2 do metrô deveria ligar o Vetor Norte ao Barreiro, desafogando corredores que hoje dependem de ônibus lotados. O cronograma oficial já foi adiado três vezes. A nova previsão fala em 2028, mas engenheiros ouvidos pela Oficina consideram o prazo otimista.
O governo de Minas Gerais atribui o atraso a licitações contestadas na Justiça e à alta do custo de insumos após 2022. A CBTU, responsável pela execução, afirma que 58% da infraestrutura está concluída — número que inclui trechos de terraplanagem, mas não estações operacionais. Moradores do Barreiro dizem que o percentual "não aparece na vida real".
O que estava prometido
A Linha 2 tem 17 quilômetros e 11 estações planejadas. O projeto original previa integração com ônibus nas estações Vilarinho, Cidade Industrial e Barreiro, além de ligação com a Linha 1 na região central. O investimento estimado ultrapassa R$ 5 bilhões, com recursos do governo federal, estadual e financiamento internacional.
Em 2020, autoridades prometeram inauguração parcial em 2024. Depois, empurraram para 2026. Agora, falam em entregar primeiro um trecho de cinco estações — sem data fechada. Para quem acorda às cinco da manhã para pegar condução, cada adiamento é mais um ano de fila.
Quem paga o atraso
Conversamos com passageiros em três pontos: Estação Eldorado (Linha 1), terminal do Barreiro e parada de BRT na Av. Cristiano Machado. O relato é parecido: lotação no horário de pico, viagens de mais de uma hora para distâncias que no mapa parecem curtas.
Marcos, metalúrgico de Contagem, conta que "o metrô era pra ter resolvido isso". Ele gasta R$ 312 por mês em passagens e chega atrasado duas vezes por semana. Júlia, estudante universitária, abandonou estágio no Centro porque o deslocamento consumia quatro horas diárias. "Não é drama — é conta de quem não tem carro", diz.
Transporte público bom não é luxo de capital europeia. É o que permite trabalhar, estudar e envelhecer na cidade sem depender de aplicativo ou de carro próprio.
Obras paradas e explicações
Em maio, moradores registraram estação com estrutura metálica instalada, mas sem movimentação por semanas. A CBTU respondeu que aguardava liberação de materiais importados para elevadores. Sindicato de engenheiros aponta subcontratações em cascata e falta de pessoal em campo.
Na Câmara Municipal de BH, vereadores de oposição protocolaram requerimento de audiência pública. A prefeitura capitalina, que não administra o metrô mas sofre o impacto no trânsito, pediu plano de mitigação para vias afetadas pelas obras. Até agora, resposta parcial.
Eleição no horizonte
Com eleições municipais em outubro, o metrô virou pauta obrigatória. Candidatos prometem cobrar o governo estadual e acelerar integração com ônibus. Historiadores da cidade lembram que BH foi pioneira no metrô brasileiro — a Linha 1 abriu em 1986 — e que a estagnação da expansão contrasta com o crescimento da região metropolitana, hoje com mais de seis milhões de habitantes.
A Oficina vai acompanhar os aditivos de contrato, as licitações pendentes e os compromissos de campanha. Se você mora perto das obras e quer relatar o que vê no dia a dia, escreva para [email protected] com o bairro no assunto.